Socorro! Meu filho vai para a creche na Irlanda, como funciona?

Este post será um pouco diferente dos outros. Teremos uma convidada falando de creche na Irlanda e o formato será de entrevista. Gostei desta ideia, pois assim, posso compartilhar informações que eu ainda não tenho experiência e os leitores do blog vivem perguntando.

Já estou trabalhando em outro post entrevista, então não deixe de assinar a newsletter lá embaixo para receber todos os posts do blog!

Vamos falar então sobre creche na Irlanda, escolinha para crianças até 3 aninhos, que muitas mamães têm que recorrer para poder voltar à vida profissional ou ainda porque querem algumas horinhas de liberdade no dia e, infelizmente, a grande maioria de nós, não tem família para ajudar.

A entrevistada da vez é a Cristiane Silva, uma brasileira que já morou em diversos países e escolheu a Irlanda para viver… pelo menos, por um tempo. rsrs Ela vai nos responder 10 questões e creio que clareará muitas de suas dúvidas.

1) Cris, para começar, nos diga sua idade, tempo de Irlanda, onde está morando, que tipo de visto possui e qualquer informação adicional que achar interessante.

Meu nome é Cristiane, tenho 37 anos, moro em Blessington, County Wicklow (região metropolitana no sul de Dublin, exatamente 25 km do centro). Tenho stamp 4 (cônjuge/união estável de cidadão europeu).

Com esse tipo de visto estou morando aqui há 1 ano e 3 meses, porém já fui estudante aqui de 2008 a 2011. Então, quando retornamos em 2016 eu já conhecia muita coisa sobre a Irlanda e sua cultura. Apesar deste conhecimento, foi uma nova experiência pois voltamos em família e conheci um país totalmente diferente do que vivi na época de estudante.

2) E sua filha, Sofia, nos conte dela. Quantos anos tem, onde nasceu, que escolinha está frequentando e desde quando.

A Sofia tem 2 anos e 7 meses, nasceu em Curitiba. Ela está frequentando creche full time (aproximadamente 40 horas semanais) desde Julho 2017. A creche que ela frequenta fica a 5 km de distância de onde moro. Apesar de existirem outras ao redor de onde moro que poderia levá-la caminhando, estou muito feliz com essa atual e não pretendo mudar.

3) Antes de começar a falar sobre a creche na Irlanda, queria saber se a Sofia chegou a frequentar creche no Brasil, por quanto tempo e como a adaptação.

No Brasil a Sofia frequentou escolinha por uns 6 meses no total. Entrou com uns 10 meses, porém ela só ia no período da tarde. A adaptação foi tranquila. Funcionava da seguinte forma: Eram 5 dias de adaptação, sendo primeiro dia de 30 minutos a 1 hora acompanhado da mãe todo o período, no segundo dia 2 horas, mas que você fica um pouco e literalmente foge quando dá uma brecha, terceiro dia 3 horas (fica espera um pouco e foge rsrsrs) e quarto dia 4 horas de preferência sozinho.

4) Agora vindo para a Irlanda, por quê decidiu colocá-la numa creche?

A decisão de colocá-la na creche foi considerando 70% necessidade de socialização e 30% necessidade da mãe de voltar ao mercado de trabalho e ter uma vida além da maternidade (sei que as mamães irão me entender aqui rsrs)!

Não temos família por perto e desde que chegamos até ter toda a situação de visto, casa e estabilidade encaminhados, ela ficava em casa comigo. Então, ela não tinha muita interação com outras crianças da mesma idade e isso era algo que nos deixava um pouco apreensivos.

5) Uma pergunta importante, foi fácil encontrar vaga e pode nos contar quanto paga por mês?

Achar escolinha aqui e tão difícil quanto no Brasil. Achar uma escolinha boa que você ame, demora. No Brasil eu visitei pelo menos umas 5 e escolhi a que era melhor custo/beneficio para aquele momento.

Aqui eu visitei as 3 escolinhas da minha região. As estruturas em geral são ótimas. Um grupo local de mães no facebook me ajudou na decisão, ao pesquisar sobre os reviews.

Gostaria de explicar que antes dessa escola que ela está atualmente, ela ficou em uma outra, que fica apenas 3 minutos andando de casa. As professoras eram muito queridas e atenciosas, porém achava um pouco desorganizada e, infelizmente aconteceu um acidente com a Sofia (sim, acidentes acontecem) o que nos deixou um pouco inseguros em continuar. A escola que ela está atualmente é um pouco concorrida para conseguir vagas. Eu liguei umas 3 vezes e eles diziam que pra idade dela tinha que colocar na fila de espera, que poderia levar meses. O fator decisivo que nos ajudou a conseguir essa vaga foi o famoso QI (quem indica)! Sim! Network na Irlanda funciona como em qualquer lugar do mundo. Uma amiga do meu marido conhecia o dono da escola e perguntou se ele podia aceitar a Sofia. Em menos de 1 semana ela já estava na adaptação.
O valor da mensalidade é 780 euros (com café da manhã, almoço + 2 snacks por dia).

Aqui acredito que começam muitas dúvidas. Será que isso e caro ou barato?! Depende, são experiências pessoais. Sim, eu confesso que comparado ao meu salário liquido acho caro, mas a partir de setembro de 2018 quando começar o novo ano letivo escolar, ela já estará no esquema de subsídio do governo e esse valor irá baixar mais.
Lembrando que não moro em Dublin onde a maioria das famílias expatriadas vive. Creio que os preços por lá sejam um pouco mais altos.

6) Adaptação: esta é a dúvida e até receio da maioria das mamães que estão imigrando para a Irlanda. Como você sentiu que foi a adaptação e quanto tempo você acha que demorou para a Sofia se sentir “em casa”, se é que ela se sente?

A Sofia se sente supeeer em casa na escolinha! Ela sabe o nome de todos ou quase todos os amiguinhos de sala (são uns 12)! Sim, no começo foi um pouco difícil pois ela tinha zero inglês. Na hora de deixá-la, ela sempre chorava. Porém todas as professoras são muito bem treinadas e elas sempre tem o jeitinho de como entretê-los. Inclusive falam abertamente “mamãe está indo trabalhar e depois volta te buscar”. Até o dia que a escola se torna um hábito para os pequenos.

O primeiro mês é o mais difícil. Após fim de semana prolongado também é normal que eles fiquem mais chorosos, mas não pelo fato que não querem ficar na escola e sim porque não querem se separar dos pais.
A adaptação normalmente é gratuita e gradual. 1 hora acompanhado no primeiro dia, 2 horas no segundo e assim sucessivamente. No total, ofereceram 5 dias de adaptação.

7) Bilinguismo: outro tema que deixa o coração das mamães apertado. Você e seu marido são brasileiros e em casa, pelo menos, a maioria do tempo falam em português com ela, correto? Como está sendo a questão do bilinguismo? A Sofia tem sofrido? De que forma a escolinha coopera neste aspecto e qual sua opinião sobre este tema? Há alguma coisa que você acha que poderia ser diferente ou está satisfeita com a forma que a escola trata as línguas? Se puder dividir conosco tudo o que você achar relevante sobre este tema, tenho certeza, que as mamães vão ficar muito felizes.

Um tema que me preocupa sim! Mas, so far, estou feliz com o resultado. A Sofia foi ensinada somente português até os 2 anos. Lembro de quando conversava com alguém em inglês na rua ela ficava incomodada e irritada, possivelmente porque não entendia nada. Quando ela começou na escolinha, nós fizemos uma forca tarefa em casa e começamos a falar mais em inglês com ela, principalmente as palavras chaves, palavras de comando como por exemplo, hora de comer, cuidado, não corra, peca desculpas, coloque seu casaco, coloque seu tênis, etc.

Eu não sei dizer quanto levou exatamente, mas eles são esponjas e aprendem muito rápido! Ela esta há 5 meses nessa escolinha e cada dia chega em casa com palavras novas.

Criancas que crescem expostas a duas línguas não sofrem! Elas aprendem a mesma palavra de forma diferente. Isso é muito nítido quando ela vê animais, por exemplo. Ela fala “o macaco”, “o monkey”. Na cabeça deles não existe língua A ou língua B (por enquanto), existem as palavras e eles também sabem com quais pessoas usar as palavras. Eu morro de curiosidade imaginando ela soltando palavras em português na escola, mas nunca nos perguntaram nada.

Até onde eu sei as pré-escolas/creche aqui não possuem um programa voltado a outras línguas. Sei que o apoio/reforço é maior nas escolas primárias e secundárias. Mas também não acho que faca falta para as crianças. Eles estão em processo de alfabetização e depende de quanto os pais também estão dispostos a ensinar e ajudar as crianças nas 2 línguas.

A professora dela comenta que ela está um pouco atrás na fala comparado aos amiguinhos irlandeses, mas é totalmente entendível pois ela é exposta a duas línguas. Sinceramente isso não se preocupa. Ela aprender o português me preocupa mais do que o inglês, afinal ela será alfabetizada em inglês.
A Irlanda tem muitos imigrantes e eles também são um povo que emigrou muito, então eles são muito abertos em relação a ensinar a sua própria cultura para os filhos. A própria professora dela já nos disse “quem me dera eu ter crescido falando 2 línguas”.

Eu estou totalmente satisfeita em todos os aspectos com a escola dela. Cuidados em geral (troca de fralda, cuidados com a higiene – dentro da realidade irlandesa), comunicação entre pais e escola (notas, quadros de avisos, e-mails), segurança predial (estacionamento amplo, interfone, divisão das salas) e atividades pedagógicas. Amo a escola da minha filha e se pudesse pagaria a professora dela para fazer servicos de baby sitting ocasionais rsrsr. Ela é muito bem tratada e vejo que em nenhum momento ela sofre qualquer tipo de preconceito, pelo contrario, faz maior sucesso com seus cachinhos no meio das crianças branquelas de olhos claros!

8) Se não estou equivocada, existe agora um ajudinha de custo que o governo fornece para crianças na creche, algo bem básico. Eu não tenho muitas informações, mas você recebe algum auxílio do governo? Se sim, como funciona?

Sim, existe um auxílio bem básico de 20 euros semanais para quem trabalha. Se chama “Affordable Child Care Scheme”. Esse valor semanal é definido conforme a renda líquida familiar, podendo ser maior porém não podendo ser menor que 20 euros semanal. No caso, o total da escola da Sofia é 860 euros e eu pago somente 780. Esse valor (e qualquer outro relacionado a childcare) é repassado pelos órgãos competentes para a escola. O dinheiro não passa por você. O órgão que regula e administra isso se chama Tusla, uma espécie de conselho tutelar. Toda criança em childcare deve ser cadastrada no tusla e quem faz isso é a própria escolinha.

A Irlanda tem vários esquemas de subsídios de creche para crianças de 0 a 3 anos. Porém, cada escolinha trata isso individualmente e normalmente a quantidade de vagas para os esquemas são limitadas. Existem também as creches comunitárias que eu sei custam em torno de 125 euros semanais, mas não tenho nenhum conhecimento ou experiência sobre isso.

9) Existe algum problema que você sente que “nasceu” a partir do momento que a Sofia começou a frequentar a creche? Por exemplo, questões financeiras, emocionais, mudanças de comportamento da Sofia ou qualquer outra dificuldade?

Com relação a Sofia só consigo ver fatores positivos no desenvolvimento dela. Na questão financeira sim, o bolso pesa. Você se pergunta se está fazendo a coisa certa. Hoje depois de 8 meses trabalhando full time, confesso que é uma luta manter a sanidade mental, trabalhar e ser mãe.
As vezes simplesmente não compensa o estresse do trabalho e vale a pena esperar até os 3 anos ou começar algo part time, poucas horas e se adaptar. Como a Sofia esta próximo de completar 3 anos não compensa pra mim mudar nesse momento, pois corremos o risco de perder a vaga dela nessa atual escola. Um dos motivos que eu trabalho também é porque quero contribuir com seguro social para poder me garantir em um eventual desemprego e continuar inserida no sistema.

10) Para finalizar, gostaria de pedir um paralelo entre o que foi a creche no Brasil e o que está sendo a creche aqui. Talvez pontos positivos e negativos de cada um. Trazer mais detalhes para que as mamães sintam um conforto ao trazer suas preciosidades para a Irlanda.

A minha experiência com creche no Brasil foi muito rápida. Eu não gostava muito da forma que a escola administrava a coleta das crianças. Mas acredito que seja cultural e também por questões de segurança. Aqui eu entro na sala dela e temos acesso total a escola. Acho a comunicação entre pais e professores aqui mais tranquila.

A coisa que mais me irrita aqui na Irlanda é o fato que eles simplesmente não limpam os narizinhos das crianças. Simmmmm, pego minha filha as vezes no fim do dia com o nariz ranhentinho. E sei que são todas assim. Regra geral não se tira tatu do nariz nem limpa o nariz escorrendo, pois segundo eles, é um fator de transmissão de vírus (não estão 100% errados).

O que eu amo na estrutura irlandesa de pré escola é o fato que eles seguem o estilo montessoriano. Incentivam a independência a fazer as coisas por si mesmo. A Sofia com 2,5 anos já coloca o casaco de inverno sozinho (existe uma técnica que eles ensinam que nunca tinha visto antes), terminou sua água coloca o copo na pia, terminou sua comida coloca o resto no lixo e eu sei disso porque em casa ela faz a mesma coisa e não foram os pais que a ensinaram. Ponto para escolinha aqui!

Gostaria de comentar aqui que apesar da Irlanda ser um considerado de cultura fria, eu confesso que não sinto frieza dos professores com as crianças e bebês. Pelo menos aonde a Sofia vai, eles pegam no colo sim e tem calor humano com os pequenos.

 

 

Cris, muito obrigada pelo tempo e pela colaboração neste post! Estas informações foram de grande valor para as famílias brasileiras imigrantes.
A vocês leitores, espero que tenham gostado. Se sim, curtam, compartilhe, comente e se ainda ficou alguma dúvida, deixe aqui embaixo que tentarei respondê-las com ajuda da nossa amiga Cris. Aproveitem também para ler mais Por quê a Irlanda é um país para criar filhos?

Obrigada e até a próxima!

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